Aplicar um modelo de avaliação de qualidade a um setor ainda não contemplado pela acreditação internacional. Esta é a estratégia do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), representante exclusivo da Joint Commission International (JCI) no Brasil, que está lançando um novo produto: o processo de acreditação também para as operadoras de planos de saúde. O objetivo é estender ao setor de saúde suplementar os benefícios do modelo que avalia a qualidade e segurança dos processos de cuidado ao paciente e propõe mudanças nas instituições de saúde, visando melhorias em seus serviços.
À frente da criação deste produto, o Coordenador de Educação e o Coordenador de Acreditação para Planos de Saúde do CBA, Heleno Costa Júnior e José Valverde. Para lançar a metodologia foi preciso desenvolver um manual específico para esse tipo de acreditação e ministrar o primeiro curso de formação de consultores para acreditação de planos de saúde, realizado no mês de julho passado. “A acreditação de operadoras de planos de saúde é uma tendência global, que está sendo lançada, no Brasil, pelo CBA. Este processo já é rotina em alguns países, principalmente nos Estados Unidos”, assegura Valverde. No Brasil, já temos operadora que já iniciou o processo de preparação para acreditação para seu seguro de saúde. A expectativa é de que a acreditação seja conquistada ainda no primeiro semestre de 2011.
A iniciativa inédita do CBA é motivada por recomendação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). “O processo de acreditação das operadoras é uma ferramenta que permite uma avaliação da qualidade dos serviços disponibilizados por uma operadora de planos de assistência à saúde. Portanto, a ANS pretende incentivar a melhoria da qualidade das operadoras, por meio da implementação de um modelo de acreditação”, assegura o diretor-adjunto da diretoria de Normas e Habilitação das Operadoras da ANS, Leandro Fonseca, que vê com bons olhos a iniciativa do CBA: “Há alguns aspectos coincidentes com a metodologia que pretendemos adotar.”
“Trabalhamos em três vertentes para avaliar a qualidade dos planos de saúde: o manual de padrões, a pesquisa da satisfação dos beneficiários e a análise de indicadores específicos. Estas ferramentas foram criadas pelo CBA, com base em parâmetros nacionais e internacionais”, revela Valverde, que explica que a duração dos processos de educação e preparação para acreditação dependerá do perfil da operadora e do seu estágio quanto à implantação de programas de qualidade.
Apesar dos avanços registrados após a criação da ANS, em 1999, Valverde pondera que somente a regulação não é suficiente para garantir a qualidade de uma operadora de plano de saúde. “Cumprir a lei não significa, necessariamente, ter qualidade”, afirma o especialista.
A acreditação também determina a obrigatoriedade de uma relação clara e transparente entre a operadora de planos de saúde e o beneficiário. “O objetivo é aprimorar a relação entre operadora e consumidor e evitar situações que prejudiquem o consumidor/beneficiário, como por exemplo, a aquisição de um produto que não atenda às expectativas do futuro beneficiário. A relação profissional entre o plano de saúde e os componentes de sua rede também é avaliada no sentido do respeito, suporte, cumprimento de obrigações mútuas, treinamento e cobrança de resultados através de indicadores de resultados assistenciais e técnicos.
Perfis diversos
Na área da saúde, o segmento de operadoras de planos de saúde é muito peculiar, pois sua dinâmica de funcionamento envolve distintos atores e interesses conflitantes. “Para começar, há diversas operadoras, com perfis e configurações muito diferentes entre si. Temos o modelo de medicina de grupo, composto por planos de saúde que têm unidades próprias de atendimento; as seguradoras, que não podem ter unidades ou serviços próprios e credenciam médicos, hospitais, clínicas e laboratórios; as cooperativas, que obedecem a uma regulamentação específica; as autogestões, que são planos de saúde não-comerciais, geralmente patrocinados por uma empresa; e os planos de saúde dos hospitais filantrópicos”, Valverde esclarece.
Em meio a tantas opções, estão usuários, médicos e unidades de saúde – todos com interesses distintos entre e si e bem diferentes das operadoras de planos de saúde. Valverde comenta que o interesse destas empresas é ter previsibilidade – o que inclui orçamento pré-definido e expectativa de retorno. “Para obter um resultado positivo nesta equação é preciso racionalizar os atendimentos. Mas racionalizar não deve ser sinônimo de restringir. Nesta busca pela previsibilidade, a qualidade pode ser prejudicada. É nesta parte que entra a acreditação”, argumenta.
Valverde acrescenta que o investimento em qualidade traz benefícios para o usuário do plano de saúde e para a operadora: “Por exemplo, o monitoramento de uma pessoa diabética visa prevenir que o usuário sofra lesões vascular, coronariana ou renal. Para a operadora, evitar internações significa redução de custos”. Segundo o especialista, a longo prazo, a acreditação das operadoras de planos de saúde impulsionará uma mudança de cultura. “Nós precisamos ultrapassar a crença de que operadoras de saúde, hospitais e beneficiários olhem apenas para suas necessidades. O usuário também não deve encarar de forma ruim os benefícios de participar de um programa de gerenciamento de pacientes crônicos, já que o objetivo, neste caso, não é restringir o atendimento, mas garantir a qualidade de vida desses usuários e evitar possíveis procedimentos mais graves e invasivos”, considera Valverde. Ele aposta que o plano de saúde acreditado será o catalisador desta mudança de paradigmas.
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