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Eventos adversos uma questão mundial grave

Eventos adversos uma questão mundial grave
Por Walter Mendes Júnior (*)
e-mail: waltermendes@cbacred.org.br

O autor discorre sobre os chamados eventos adversos, que se tornaram uma preocupação mundial a partir da constatação da sua alarmante incidência (WHO, 2003).

Há duas décadas, pesquisadores estudam de forma sistemática um fenômeno relacionado ao mau desempenho dos serviços de saúde. Este fenômeno – os eventos adversos (EAs) – atinge, nos países onde foi investigado, patamares alarmantes (WHO, 2003). Nos estudos internacionais, com enfoque na melhoria de qualidade, que utilizaram como método a revisão retrospectiva de prontuários, a incidência atingiu 10%, ou seja, entre 100 pacientes internados, 10 apresentaram EAs. (ver tabela 1). Especialistas acreditam que com o método usado nos estudos o número real EAs está subestimado.

Estima-se que cerca de 100 mil pessoas morram em hospitais a cada ano, vítimas de EAs nos Estados Unidos da América (EUA). Essa alta incidência resulta em uma taxa de mortalidade, nos EUA, maior do que as atribuídas aos pacientes com AIDS, câncer de mama ou atropelamentos (Kohn et al., 2000).

A ocorrência de EAs representa também um grave prejuízo financeiro. No Reino Unido e na Irlanda do Norte o prolongamento do tempo de permanência no hospital devido aos EAs custa cerca de dois bilhões de libras ao ano. O gasto do sistema nacional de saúde inglês com questões litigiosas associadas aos EAs é de 400 milhões de libras ao ano. Nos EUA, os custos anuais provocados pelos EAs estão estimados entre 17 e 29 bilhões de dólares anuais (WHO, 2003).

EAs são definidos como “lesão ou dano não intencional que tenha resultado em incapacidade ou disfunção temporária ou permanente e/ou internação prolongada em conseqüência do cuidado prestado” (Mendes, 2005). É importante entender que o conceito de EAs devido à negligência presente nas décadas de 70 e 80 foi substituído pelo conceito de EAs evitável e que no atual estágio da medicina mundial é de cerca de 35 a 50% do total dos EAs pesquisados (Baker, 2004).. Existe muita confusão conceitual entre erros e EAs. Conforme demonstrado no exemplo da figura 1, erros podem ser ou não causadores de EAs.

Figura 1

No Brasil as pesquisas estão no seu início. Investigar EAs rotineiramente é um desafio para os hospitais. A crescente implantação de prontuários eletrônicos deve facilitar a criação de mecanismos mais ágeis de avaliação (Murffy, 2003)

 

Tabela 1 – Tamanho da amostra, incidência de EAs e proporção de EAs evitáveis nos estudos de avaliação da ocorrência de EAs em hospitais, baseados em revisão retrospectiva de prontuários.

 

Estudo – data – local

Prontuários examinados

% Pacientes

com EA

% EA evitáveis entre os eventos adversos

Mills et al, Califórnia, 1977. MIFS

20864

4,6

Não relatada

Brennan et al, Leape et al, Nova York, 1984. HMPS

30121

3,7

Relatada negligência

Thomas et al, Utah, Colorado, 1992. UCMPS.

14700

2,9

Relatada negligência

Wilson et al 1992 Austrália. QAHCS.

14179

16,6

50,3

Davis et al, Nova Zelândia, 1998. AENZS

6579

11,3

61,6

Vincent et al, Inglaterra 1999 – 2000. BAES

1 014

10,8

52,0

Baker et al, Canadá, 2000.CAES

3745

7,5

36,9

Michel et al França. 2002.

778

14,5

27.6

Schioler et al, Dinamarca, 2001. DAES

1097

9,0

40,4

Mendes, 2005

 

 

Referências:

Baker GR, Norton PG, Flintoft V, Blais R, Brown A, Cox J et al. The Canadian Adverse Events Study: the incidence of adverse events among hospital patients in Canada. CMAJ2004; 170: 1678-86.

Kohn LT, Corrigan JM, Donaldson MS, McKay T, Pike KC.To err is human. Washington, DC: National Academy Press; 2000.

Mendes W, Travassos C, Martins, M, Noronha, JC. Revisão dos estudos de avaliação da          ocorrência de eventos adversos em hospitais. Revista Brasileira de Epidemiologia, 2005; 8(4): p.

Murff HJ, Patel VL, Hripcsak G, Bates DW. Detecting adverse events for patient safety research: a review of current methodologies. JAMIA 2003; 36:131-43.

World Health Organization. Patient Safety: Rapid Assessment Methods for Estimating Hazards. Genebra; 2003.

 

(*)  Walter Mendes Jr. é médico, Mestre em Políticas, Planejamento e Administração de Serviços de Saúde pelo IMS/ UERJ e Avaliador do CBA.



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