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01/03/2017
Gerenciamento e uso de medicamentos, uma cultura que ainda precisamos aprender e empreender
* Por Adelia Quadros

Estudos internacionais têm demonstrado que grande parte dos eventos adversos está relacionada a medicamentos. Esse resultado também é uma realidade no Brasil, conforme apontou a pesquisa conduzida por Walter Mendes, doutor em saúde pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em 2009, que mostrou que os danos aos pacientes relacionados a medicamentos foram quase 5% do total dos 7,6% de incidência estimada de eventos adversos em hospitais. Entre os incidentes mais frequentes estão a administração de dose errada, a omissão ou atraso de dose e o erro na distribuição de medicamentos, especialmente analgésicos, antipiréticos, hipoglicemiantes, anti-inflamatórios e anticoagulantes.

Nesse cenário, é imprescindível que as atividades do farmacêutico hospitalar sejam mais valorizadas, já que são de fundamental importância para a segurança do paciente. Entretanto, em algumas instituições, o local disponível para a farmácia hospitalar é desproporcional ao número de leitos e volume de produtos armazenados, afora o número de farmacêuticos estar aquém da real necessidade e do que é preconizado pela legislação.

Apesar de a Farmácia Clínica ter sido instituída na década de 60 nos Estados Unidos, e da Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendar, desde 1988, a inclusão do farmacêutico nas equipes de cuidado ao paciente, ainda hoje há insuficiência de farmacêuticos especializados para exercerem as atividades e atuar mais próximo à equipe multiprofissional. Há evidência de que a presença deste especialista na equipe do cuidado, participando dos rounds, reduz os erros de medicação em 78%.

O farmacêutico é responsável por alguns processos específicos, como: selecionar os pacientes que necessitam de monitoramento permanente por uso de medicamentos potencialmente perigosos ou com maior potencial de produzir reações adversas; participar nas decisões sobre o plano terapêutico multiprofissional, dando informação sobre medicamentos e esclarecendo dúvida; realizar a educação de pacientes e familiares sobre o uso de medicamentos no hospital e no domicílio, após a alta; e realizar o seguimento fármaco-terapêutico do paciente.

É fundamental também reconhecer e respeitar as funções prioritárias do farmacêutico clínico, inclusive as relativas à atuação na educação permanente dos profissionais em tudo a que se refere a medicamentos e a participação em comissões intra-hospitalares (Comissão de Farmácia e Terapêutica, CCIH, Núcleo de Segurança do Paciente etc.).

O monitoramento da resposta terapêutica e das reações adversas a medicamentos é papel de todos os profissionais da saúde. Cabe ainda, a todos os profissionais que participam direta ou indiretamente do cuidado ao paciente, incluindo os gestores/administradores, estarem atentos às questões relativas à segurança de todas as etapas dos processos do gerenciamento e uso de medicamentos.

O treinamento e o maior conhecimento da equipe de enfermagem sobre a ação dos medicamentos, cálculo, diluição, nome genérico e de marca, interação medicamentosa, indicação, prescrição, patologia e condições do paciente levam à maior segurança no preparo e administração de medicamentos.

Cabe ressaltar que o médico e o dentista são responsáveis pela prescrição, dentro dos critérios de uso racional de medicamentos, ou seja, garantindo que será tomada a melhor decisão quanto ao medicamento a ser usado, minimizando o risco de erros de medicação, pois cerca de 40% deste são erros de prescrição. O enfermeiro, durante o aprazamento, realiza a primeira revisão da prescrição. Já o farmacêutico é o responsável por analisar todos os itens prescritos, a legibilidade, ausência de rasuras e emendas, identificação completa e adequada do prescritor, identificação do paciente, substância ativa – concentração e dosagem, forma farmacêutica, quantidades e respectivas unidades, modo de usar ou posologia, duração do tratamento, interação medicamentosa etc. A revisão da prescrição, além de ser um preceito legal (RDC nº 214, de 12 de dezembro de 2006), é a importante estratégia para evitar que os pacientes sofram incidentes com dano (eventos adversos), pois se sabe que o paciente hospitalizado, em média, experimenta um erro de prescrição por dia.

A informatização da prescrição também é substancial para o sistema de gerenciamento e uso de medicamentos, pois torna mais ágeis os processos e facilita o controle e monitoramento de todas as etapas do sistema. Além disso, o uso de tecnologia (computador e código de barras) reduz a taxa de erros de medicação em 70%.

Os pacientes e seus familiares devem ser envolvidos no processo de segurança do uso de medicamentos. A educação de pacientes e familiares sobre os medicamentos em uso promove maior adesão ao tratamento e o monitoramento de reações, uma vez que eles trazem para a equipe informações importantes sobre reações alérgicas, alterações no equilíbrio (que levam ao risco de queda), efeitos esperados ou adversos, que levam a suspeita de interações farmacológicas e de medicamento com alimento, e outras reações adversas.

A Joint Commission International (JCI), maior agência verificadora da qualidade e segurança em saúde do mundo – associada no Brasil, ao Consórcio Brasileiro de Acreditação – estabeleceu padrões relativos ao gerenciamento e uso de medicamentos, que visam aumentar a segurança em toda a cadeia de processos do sistema de gerenciamento e uso de medicamentos, dedicando um capítulo do seu Manual ao tema. A conformidade com esses padrões garante que a organização proporciona menor risco para os pacientes, maior qualidade e eficiência.

A JCI recomenda ainda que todos os processos do sistema de gerenciamento de medicamentos sejam revisados anualmente, tendo como base a análise das informações, como indicadores, notificação de erros de medicação e das experiências acumuladas. Para o replanejamento adequado, toda a equipe multidisciplinar, principalmente médicos, odontólogos, enfermeiros e farmacêuticos devem conhecer bem todos os processos e precisam estar envolvidos em todas as etapas.

* Adelia Quadros é médica, mestre em Ciências da Saúde Pública, com experiência em Gestão Hospitalar e na área da Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente. É educadora em Acreditação de Serviços de Saúde e docente do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), associado brasileiro da Joint Commission International.

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